Ronilson de Sousa Lopes nasceu em Carolina, no Maranhão, em 1980, mas passou sua infância e adolescência em Goiatins, no Tocantins. É poeta, escritor e professor de Filosofia do Instituto Federal do Amazonas. Possui Mestrado em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Atualmente cursa Doutorado em Letras: Linguagem e Identidade, pela Universidade Federal do Acre (UFAC). Seu mais novo trabalho literário é o livro infanto-juvenil Os olhos de Zuri, publicado pela Editora InVerso.

ENTREVISTA

Revista Projeto AutoEstima: O livro Os olhos de Zuri traz uma trama intensa, que mistura superação, perdas e descobertas. O que motivou você a escrever uma história tão marcada por emoções fortes e dilemas existenciais?

Ronilson Lopes: As discussões que eu estava vivenciado em sala de aula, no curso de Doutorado em Letras: Linguagem e Identidade, da Universidade Federal do Acre (UFAC) e as muitas leituras que estava fazendo, entre elas Identidade, de Zygmunt Bauman, A terra quer a terra dá, de Antonio Bispo dos Santos, O Avesso da pele, de Jeferson Tenório, dentre outras.

Revista Projeto AutoEstima: Ao acordar da cirurgia, Zuri se depara com duas grandes revelações: a morte da mãe e a percepção de que é o único negro da família. Como foi trabalhar literariamente esse choque duplo de realidade?

Ronilson Lopes: Para Zuri, em termos simbólicos a mãe representa a herança portuguesa. É essa matriz que nos ensinou uma língua, uma religião, uma cultura. É preciso que, em certa medida, ela morra em nós, para percebermos que temos uma outra herança cultural: a africana.

Revista Projeto AutoEstima: A busca de Zuri por suas origens o leva até um quilombo no Maranhão. Qual a importância desse cenário na construção da identidade do personagem e na mensagem da obra?

Ronilson Lopes: O personagem Zuri faz essa caminhada até um quilombo no Maranhão, numa tentativa de inventar uma nova identidade, pois até aquele momento só havia alguns indícios, anteriormente não visualizados: a cor da pele, umas cartas, uma fotografia… Agora, que ele enxerga e vai descobrindo esses e outros vestígios de sua história, poderá forjar esse novo caminho. Assim como Zuri, nós também somos convidados a descobrir nosso caminho identitário.

Revista Projeto AutoEstima: Você aborda não apenas a questão da cegueira e do transplante, mas também temas como adoção, identidade étnica e pertencimento. Como equilibrou esses elementos na narrativa sem perder a sensibilidade?

Ronilson Lopes: Esse livro é fruto de uma inspiração inicial, mas também de bastante estudo, de escrita e reescrita. Quando escrevo, eu busco a leveza e o equilíbrio, porém, eu não sei se consigo. Na verdade, só o leitor saberá… Espero ter o retorno dessa percepção, pois é muito importante.

Revista Projeto AutoEstima: O título Os olhos de Zuri sugere mais do que a visão física. Ele também simboliza novos olhares para a vida, para a verdade e para as origens. Essa foi uma escolha intencional desde o início da escrita?

Ronilson Lopes: Sim, foi intencional. Eu costumo pensar e planejar bem cada elemento da narrativa quando escrevo. O enxergar é uma metáfora para esse processo de tomada de consciência de que a nossa vida, enquanto pessoas negras, está marcada, em certa medida, pela cor da pele.

Revista Projeto AutoEstima: O livro retrata sentimentos contrastantes, como raiva, gratidão e amor. Na sua visão, esses conflitos internos fazem de Zuri um espelho para muitos leitores?

Ronilson Lopes: Eu penso que muitos irão se identificar com os conflitos de Zuri, talvez não exatamente dessa forma, pois, de alguma maneira, enquanto afrodescendentes, em certa medida fomos influenciados pela cultura do colonizador, sua língua, sua religião e modos de pensar as coisas, às vezes acreditando que tudo o que se refere ao colonizador é bom e, por outro lado, tudo o que é da cultura africana é ruim, mau, demoníaco, até começarmos a perceber que fomos manípulos na nossa maneira de ver, pois a nossa herança africana é extremamente rica e positiva.

Revista Projeto AutoEstima: A história mostra a herança dividida entre a família adotiva e as raízes desconhecidas. Qual mensagem você espera passar sobre reconciliação, identidade e aceitação?

Ronilson Lopes: A história é aberta para diversas interpretações. Zuri é um menino criado por uma mãe branca e, de repente, descobre ter outra família, uma família negra. Eu penso que mais que encontrar-se, para usar um conceito caro aos estudos culturais, de Silviano Santiago e Homi Bhabha, é reconhecer o entre lugar… A princípio, é reconhecer um sentimento de não pertencer nem aqui e nem lá… Daí a necessidade de inventar uma nova identidade, ainda que utilizando elementos dos quais já se dispõe.

Revista Projeto AutoEstima: O transplante de córnea em Os olhos de Zuri é descrito como a maior dádiva e, ao mesmo tempo, o maior sacrifício. Como você enxerga essa dualidade e que reflexões gostaria de despertar no público?

Ronilson Lopes: Os olhos são uma metáfora para dizer que, em certa medida, enxergamos a partir dos valores que nos formaram, nos moldaram; no entanto, o olhar é aberto… De repente, podemos nos permitir ver outras coisas, perceber o mundo, os fatos narrados a partir de outro ponto de vista.

Revista Projeto AutoEstima: Como o leitor interessado deve proceder para saber um pouco mais sobre o seu livro?

Ronilson Lopes: Meu livro encontra-se disponível para venda no site da Editora InVerso https://editorainverso.com.br/produtos/os-olhos-de-zuri/

Revista Projeto AutoEstima: Quais são os próximos passos da sua carreira literária?

Ronilson Lopes: O livro Os olhos de Zuri acabou de ser publicado e teve seu primeiro lançamento no V Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as negros/as da Região Norte, (COPENE NORTE); então, no momento, o que tem marcado na agenda, em termos literários, é divulgá-lo.

Revista Projeto AutoEstima: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Ronilson Lopes: Quero dizer que o livro foi muito bem elaborado, a Editora InVerso tem um trabalho de excelência, além das ilustrações de Hellen Fanucchi, que é uma Design Gráfica, formada pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Por fim, a todos que queiram ler Os olhos de Zuri, uma boa leitura!

para adquirir o livro, acesse o site da Editora InVerso https://editorainverso.com.br/produtos/os-olhos-de-zuri

Créditos das fotos: Ronilson Lopes.

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