Após Mark Zuckerberg depor em tribunal nos Estados Unidos em processo que questiona se a Meta criou recursos viciantes para jovens, especialistas brasileiros analisam o impacto das telas no cérebro infantil
 

O depoimento de Mark Zuckerberg, fundador da Meta, em tribunal norte-americano foi notícia na última semana. O que já vinha crescendo silenciosamente entre famílias e profissionais de saúde foi parar no tribunal: as redes sociais e jogos digitais podem provocar dependência em crianças?

A ação judicial nos Estados Unidos discute se as plataformas utilizam mecanismos desenhados para aumentar retenção e engajamento entre jovens. Mas, independentemente da decisão jurídica, a ciência já vem observando efeitos preocupantes do uso excessivo de telas no cérebro em desenvolvimento.

Para Isa Minatel Neuropsicopedagoga e autora dos best-sellers Crianças Sem Limites e Temperamentos Sem Limites, o ponto central é biológico. “O cérebro da criança ainda está em construção. As áreas responsáveis por controle de impulsos, autorregulação e tolerância à frustração estão em formação. A tela oferece estímulos intensos e imediatos, ativando fortemente o sistema de recompensa. É prazer sem espera, sem esforço e sem mediação humana. O cérebro imaturo aprende rapidamente que ali está o alívio.”

Segundo ela, o risco não está na tecnologia em si, mas na substituição da experiência real. “O problema começa quando a tela ocupa o lugar do vínculo, do corpo em movimento, do tédio criativo e da convivência. A criança ainda não tem maturidade para autorregular esse consumo.”

Dr. Paulo Telles Pediatra, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que a discussão já ultrapassou o campo comportamental. “A Organização Mundial da Saúde incluiu na CID-11 o Transtorno do Jogo Eletrônico. Ele é caracterizado por perda de controle, priorização crescente da atividade digital sobre outras áreas da vida e manutenção do comportamento mesmo diante de prejuízos claros.”

No Brasil, a SBP utiliza o termo uso problemático de telas quando há impacto funcional relevante. “Não é apenas o tempo de exposição que define o problema, mas o prejuízo persistente no desempenho escolar, nas relações sociais, no sono e na saúde emocional.”

Estudos de neuroimagem já apontam associação entre uso excessivo de telas e alterações em regiões ligadas às funções executivas e ao controle de impulsos, além de hiperativação dos circuitos dopaminérgicos de recompensa. O cérebro infantil, por estar em intensa fase de plasticidade, torna-se particularmente vulnerável a estímulos altamente recompensadores e repetitivos.

Na prática, os sinais costumam aparecer antes mesmo de um quadro clínico estabelecido. Segundo Isa Minatel, pais relatam irritabilidade intensa quando a tela acaba, dificuldade de brincar sozinho, baixa tolerância à frustração, explosões emocionais desproporcionais, desinteresse por atividades simples, dificuldade de concentração e sono desregulado.

“É como se o mundo real perdesse o brilho. Perto da hiperestimulação digital, a vida parece lenta”, afirma.

Para reduzir conflitos familiares e prevenir quadros mais graves, os especialistas defendem uma abordagem que vai além da simples proibição. Isa Minatel propõe cinco pilares para fortalecer a relação saudável com a tecnologia: consciência sobre riscos, incentivo à leitura, desenvolvimento de autonomia, estímulo ao movimento corporal e fortalecimento de amizades presenciais.

Dr. Paulo reforça as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta:

-Evitar telas para menores de dois anos (exceto videochamadas)
-Limitar fortemente até os cinco anos
-Após essa idade, uso moderado, supervisionado e com conteúdo adequado
-Manter ambientes livres de tela no quarto e nas refeições
-Proteger o sono e priorizar atividade física

“As crianças aprendem muito mais pelo exemplo digital dos adultos do que pelas regras impostas. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que o cérebro em desenvolvimento precisa de vínculo, frustração saudável, movimento e experiências reais para amadurecer de forma equilibrada”, conclui o pediatra.


SOBRE ISA MINATEL

isa.minatel

Isa Minatel é neuropsicopedagoga, autora dos best-sellers “Crianças Sem Limites”, “Temperamentos Sem Limites” e das obras recém-lançadas “Filho não vem com manual” e “Disciplina do Equilíbrio”. Com mais de 15 mil alunos em seus cursos. Isa Minatel já soma mais de 1 milhão de pessoas em suas redes sociais. Criadora da metodologia Disciplina do Equilíbrio, Isa impacta famílias, escolas e profissionais no Brasil e no exterior, integrando ciência, vínculo e espiritualidade em sua abordagem.

Dr. Paulo Nardy Telles

CRM 109556 @paulotelles

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