Há quase 31 anos dedicados à criação e execução de projetos culturais,
sociais e educacionais, Henrique Medeiros Sérgio construiu uma trajetória
marcada pela capacidade de transformar escuta em linguagem e experiência em
ação. Escritor, pesquisador, compositor e idealizador de iniciativas de impacto
social, seu trabalho transita entre literatura, música e projetos comunitários,
abordando dores, superações e vínculos humanos a partir de uma prática contínua
de cuidado, presença e tradução do vivido.

Desde 1995, sua atuação concentra-se na prevenção das violências contra
crianças e adolescentes, mulheres e a população LGBTQIAPN+, bem como na
redução do isolamento humano, compreendido como uma consequência direta
das violências contemporâneas. Idealizador do Programa Não se Isole, que em
2026 realiza a 10ª edição de seu prêmio, Henrique desenvolve ações estruturadas
a partir da pesquisa, da escuta sensível e do impacto humano consistente,
propondo formas de reconhecimento que fortalecem pertencimento, coletividade
e permanência.

Ao longo de quase 31 anos de atuação, sua trajetória parece ter sido
guiada pela escuta como método. Em que momento você percebeu que
escutar não era apenas um gesto humano, mas uma ferramenta estruturante
do seu trabalho social e criativo?

A escuta sempre esteve presente, mas houve um momento em que
compreendi que ela não poderia ser apenas intuitiva. Quando
comecei a lidar de forma mais direta com histórias atravessadas pela
violência, pelo silêncio e pelo abandono, percebi que escutar exigia
responsabilidade, preparo e método. A partir daí, a escuta deixou de
ser apenas sensibilidade e passou a ser estrutura, algo que organiza
o pensamento, a criação e a ação social.

Você atua simultaneamente na literatura, na música e em projetos
sociais. Como esses campos se atravessam na prática e de que forma a
experiência vivida se transforma em linguagem, cuidado e ação concreta?

Para mim, não são campos separados. A literatura nasce da escuta, a
música amplia o alcance emocional dessa escuta e os projetos
sociais transformam tudo isso em ação concreta. A experiência vivida
não é ilustrativa, ela é matéria-prima. O que escrevo, canto ou
estruturo como projeto vem do contato direto com pessoas,
territórios e histórias reais. A linguagem surge como forma de
organizar o vivido e devolver isso à sociedade como cuidado.

Grande parte do seu trabalho está voltada à prevenção das violências e
à redução do isolamento humano. Por que o isolamento se tornou, na sua visão,
uma das marcas mais profundas das violências contemporâneas?

Porque a violência não termina no ato. Ela continua no silêncio, no
medo e na sensação de estar sozinho. O isolamento é uma
consequência direta das violências familiares, sociais e simbólicas.
Quando alguém se isola, perde referências, apoio e pertencimento.
Trabalhar a redução do isolamento é, portanto, atuar na raiz do
problema, antes que ele se agrave emocionalmente ou socialmente.

Você é idealizador e coordenador do Programa Não se Isole e da 10ª
edição do Prêmio Não se Isole 2026, que propõem um modelo de
reconhecimento diferente das premiações tradicionais, baseado em presença,
cuidado e pertencimento. O que esse formato revela sobre a forma como você
entende impacto social?

O impacto social não se mede apenas por números ou visibilidade.
Ele se constrói a partir de vínculos, continuidade e transformação real
na vida das pessoas. O Prêmio Não se Isole não está centrado na ideia
de subir ao palco, mas na possibilidade de ser visto, ouvido e
reconhecido dentro do próprio território de atuação. Quando o
reconhecimento acontece com presença, ele fortalece tanto quem
realiza quanto quem recebe, reafirmando que o impacto social
verdadeiro nasce do encontro, da escuta e do pertencimento.

Na 10ª edição do Prêmio Não se Isole, o critério central foi o impacto
humano consistente. Como é possível avaliar esse impacto sem recorrer
apenas a métricas frias?

O impacto humano se percebe na permanência, na coerência da
trajetória e no efeito que aquela ação gera nas pessoas ao redor. Por
isso, o processo envolveu pesquisa contínua, escuta, análise de
contexto e diálogo com os territórios. Não buscamos ações pontuais,
mas construções que sustentam vínculos ao longo do tempo.

A música-tema “Não se Isole”, com 100% dos royalties destinados ao
programa, transforma a arte em fonte direta de sustentação social. Como você
enxerga o papel da música nesse modelo de financiamento e de sensibilização
coletiva?

Para mim, a música cumpre um papel duplo: sustentar e
sensibilizar.
“Não se Isole” nasce da escuta e retorna a ela. Quando
a letra diz »quando.o.mundo.pesa.e.tudo.fica.longe?.tem.dias.que.a.
gente.quase.some‹ , ela traduz uma experiência coletiva de solidão e
exaustão emocional. Ao mesmo tempo, aponta um caminho possível
ao afirmar que »se.alguém.chega?.acolhe?.o.peso.cai‹ .
Nesse sentido, a música não é apenas trilha, ela é gesto. Ao
transformar presença em melodia e cuidado em palavra cantada, a
canção mobiliza afetos, cria identificação e convida ao encontro.
Destinar integralmente os royalties ao Programa Não se Isole é uma
forma concreta de fazer com que a arte ultrapasse o campo simbólico
e se transforme em ação direta, sustentando projetos, redes e
pessoas.
A canção foi criada com alma e coração. A primeira versão é
interpretada por mim, mas ela não nasce para ser individual. Ao longo
do ano, do Prêmio ao Selo Não se Isole, ela ganhará novas vozes e
novas formas de existir. Será interpretada em Libras, coreografada
com e para pessoas com deficiência, cantada por artistas
convidados e compartilhada coletivamente. É um pop dramático
pensado para a viralização do bem, capaz de circular, emocionar e
mobilizar.
Quando a música afirma que »ninguém.precisa.ir.sozinho‹ e que »às.
vezes.ficar.já.é.salvar‹ , ela resume a essência do Programa Não se
Isole. A canção sensibiliza, mas também financia, permitindo que
aquilo que é cantado se materialize em cuidado, presença e
continuidade. É a arte cumprindo sua função social mais profunda:
acolher, mobilizar e sustentar vidas.

(Entrevista Jan/2026 com Jornalista Mariana Rozadas e Henrique Medeiros)

O programa se estende para além do 10º Prêmio, com o Selo Não se
Isole, livros, música e consultorias gratuitas. Que legado você espera
construir a partir dessa continuidade?

Mais do que um prêmio, o Não se Isole representa uma solidariedade
estendida, construída coletivamente por mim, por minha equipe e
pelos 100 homenageados desta edição. São pessoas, ações e
projetos que atuam com foco em presença, cuidado e inclusão,
cumprindo um papel social essencial ao transformar
reconhecimento em responsabilidade compartilhada.
O prêmio não se encerra no momento da entrega. Ele se estende
como gesto, ponte e continuidade. Ao serem reconhecidos, os
homenageados passam também a ampliar o impacto de suas
próprias ações. Cada um dos 100 reconhecidos pode indicar até três
iniciativas para receber o Selo Não se Isole, levando visibilidade,
orientação e apoio a outras até 300 ações que, muitas vezes, atuam
de forma silenciosa e solitária. É um projeto ousado, mas que vem
demonstrando, na prática, que transformar reconhecimento em rede
é possível e necessário.
Sou profundamente grato a cada homenageado que aceitou receber
o prêmio e, ao mesmo tempo, se dispôs a caminhar junto nessa
missão coletiva de fortalecer vínculos e ampliar o cuidado. E é nesse
espírito de pertencimento que seguimos, inclusive simbolicamente,
ao podermos cantar juntos uma das versões da música-tema do
Programa, reafirmando que, “mesmo quando o mundo parecer
distante, não se isole”.

Entre 2026 e 2027, o programa amplia sua atuação com novos livros,
projetos editoriais e ações coletivas. De que forma essa expansão fortalece o
cuidado emocional, a inclusão e o enfrentamento das violências nos diferentes
públicos atendidos?

Além da 10ª edição do prêmio e do Selo Não se Isole, o programa prevê, entre
2026 e 2027, o lançamento de seis livros da coleção “Habite-se! Não se Isole”,
com volumes dedicados ao cuidado emocional, às mulheres, às mães atípicas e à
população LGBTQIAPN+. Integra ainda esse conjunto o livro-reportagem “Um
Príncipe da Inclusão em um Mundo Excludente”,
de enfoque social e humanista
sobre o autismo.

O primeiro volume, “Habite-se! Não se Isole”, é um livro de encontro, onde
as quatro linhas se cruzam, Cuidado Emocional, Mulheres, Mães Atípicas e
LGBTQIAPN+.
Por iniciativa de Alcione Gimenes Conejo, editora-chefe e CEO da
Editora Conejo, a produção e a impressão da obra, bem como toda a estrutura de
divulgação do livro, estão sendo integralmente doadas como gesto de apoio e
cuidado ao Programa Não se Isole e a seus beneficiados diretos e indiretos.

O Programa Não se Isole é viabilizado majoritariamente por recursos
próprios, provenientes de royalties de músicas, livros e palestras. Por que a
autonomia financeira é um elemento central para a coerência ética e a
continuidade do projeto?

O Programa Não se Isole é viabilizado quase integralmente por
recursos próprios, provenientes dos royalties de músicas, livros e
palestras que realizo. Em alguns projetos publicitários dos quais
participo, popularmente conhecidos como publis, termo
amplamente utilizado no universo dos influenciadores digitais, parte
dos recursos também é destinada ao programa. Eventualmente,
recorro a financiamentos coletivos, que contribuem de forma
significativa para a sustentação de ações específicas.

A autonomia financeira é um elemento central para a coerência ética
e para a continuidade do projeto. Embora o Programa Não se Isole
tenha um custo elevado para existir e se manter, essa forma de
financiamento garante liberdade de ação, independência e fidelidade
aos seus princípios fundadores. Ela assegura que o projeto
permaneça livre de dogmas, disputas ideológicas ou alinhamentos
político-partidários.

Meu compromisso, enquanto idealizador, é exclusivamente com o ser
humano, com suas dores, suas vivências e sua dignidade. Essa
independência permite que as decisões sejam tomadas a partir da
escuta, da pesquisa e da realidade concreta dos territórios atendidos,
sem interferências externas que desviem o foco central do cuidado.

Ao sustentar o programa com recursos próprios, com financiamentos
coletivos pontuais e com parcerias alinhadas aos mesmos valores,
inclusão, escuta e cuidado, preservo a integridade do projeto, sua
continuidade e a possibilidade de atuar de forma ética, consistente e
verdadeiramente comprometida com quem mais precisa.

Entrevista: Revista projeto AutoEstima
Fotos de Divulgação: Produção
Redes Sociais: @henriquemedeirossergio
Spotify : Henrique Medeiros Sergio

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