Olho para o fluxo e refluxo das ondas e observo as ondas que, calmamente, acalentam a areia. Algumas, no meio do caminho, voltam indecisas; outras beijam languidamente e retornam, pois sabem que suas vidas são águas e, unidas, umas dependem das outras nas noites plácidas para ouvir o som da dança incógnita das marés. Acostumaram-se a ser parceiras do relento do mar e a ouvir o voejar das aves migratórias e os lamentos dos peixes descuidados, prisioneiros das redes, ou o perfurar dos arpões que atravessam sem condolência e emudecem o som orquestral das baleias, que se esvai.

E, nesta ingratidão imposta, ilusão descabida, olho a esmo e presencio o olhar de um ancião que se sentou ao meu lado e, como se lesse meus pensamentos e se sensibilizasse com minha melancolia, começou a narrar sua história de caminhos distorcidos.

O abandono é complexo, feito de fases e etapas… Nos primeiros dias, deixa-nos à mercê do esgotamento mental. Para aqueles que valorizam o dom da vida, é como um carrossel em movimento numa praça deserta: aproveita-se o vento a favor, que os abraça, e giram sem pressa de chegar ao ponto de início para procurar por falhas nas distorções; ou sentam-se e, como um cãozinho fiel, abanam sua cauda, levantam as orelhas ao observar o começo da estrada tortuosa na esperança de que aquele que se foi retorne ao ponto de partida. São vazias as estações quando o trem da saudade deixa-nos à espera de um abraço ausente ou de um sorriso mudo. — Sendo esta a pior fase, entramos em sites de encontros para encontrar o que nunca tivemos, a fim de aplacar a solidão, que é infinita nas redes sociais que vieram para unir, mas afastam.

É como um navegante em apuros: qualquer alma serve para socorrer e ouvir suas dores no precipício da procura.

Na segunda fase, como um desvairado masoquista, associa-se à insônia, inimiga das noites, e começa a ouvir canções que trazem conforto ou engano para sanar as chagas de um amor perdido. Mas uma depressão muda e cega chega sem aviso, invadindo sorrateiramente a porta de entrada como uma distorção no espaço privativo, trazendo a fadiga juntamente com o inseparável amigo tédio, que se disfarça de alegria dissimulada. Nesses momentos, a dor deixa de ser um sinal nítido e torna-se um ruído efêmero. A alegria não desaparece completamente, mas perde suas coordenadas, e as lágrimas, como refrigério, contornam a face rugosa como os primeiros passos de quem esqueceu como chorar.

Mas, na próxima fase — isto varia de pessoa para pessoa —, ou seja, na terceira fase, começa-se a selecionar e formular nos pensamentos, já anestesiados, o tipo de fisionomia estética que se quer ter para compor e embalar na dança da aventura de viver posteriormente, pois não se pode ser um eremita que vive numa ilha isolada.

Mas o peso da ordem do seu Criador vira um algoz na caminhada do cotidiano: “Não é bom que o homem esteja só.” E, com sua sapiência e habilidade, enquanto hipnotizado nos braços de Morfeu, retira um pedaço de sua costela para lhe dar uma companheira e cauteriza o local para que esse desejo insano o escravize, embora muitas vezes o leve a querer usurpar o pedaço faltante que não lhe pertence nessa busca infindável, trazendo dissabores e, junto deles, contendas.

Mas a reação é surpreendente na derradeira fase, ou seja, o epílogo da ressurreição do pesadelo das agruras: olha para seu corpo diluído e nota que seus passos, durante certo tempo, foram ceifados juntamente com sua ânsia de viver, como asas feitas para voar, mutiladas.

Mas, nesse impasse, não restaram mais lágrimas — secaram ao meu primeiro sinal de lucidez. O que havia de frágil em mim foi extirpado sem anestesia. Sou o que permaneceu após o colapso — não intacto, mas vacinado, pois o abandono traz a doença da solidão. — Estar junto não é estar unido, e, como a fênix que renasceu das cinzas, comecei a revoar e a correr das armadilhas pitorescas do destino, com seus caminhos contraditórios. — Deixe a vida te levar, pois, como um gato ofendido por víboras, tenha medo até de barbantes.

E foi assim que ela partiu sorrateiramente, sem dar explicação, deixando a cidade como quem fecha a porta devagar para não quebrar o silêncio. Foi embora na madrugada, quieta, sem alarde, em letras manuscritas carmesim deixadas no espelho, como se fosse o último suspiro do batom: — “Adeus para sempre, fique com Deus”, como se Ele fosse conivente com os desencontros.

… … …

Biografia: Ivan Ribeiro: É mineiro, poeta e escritor. Reside em Piúma, ES.
Tem escritos publicados em vários meios de comunicação, na UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei – MG) e no SENAI, além de participação na Academia Marataizense de Letras.
Participou de várias antologias e tem trabalhos publicados na Revista Autoestima, pela Travassos Editora, Editora Carnage, Vivara Editora, Editora Arame Farpado, Quimera Antologias, além de diversas participações em jornais.

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