Reprodução|Instagram @rafakalimann

Influenciadora falou sobre medo e ansiedade em documentário. Especialista aponta como presença emocional e rede de apoio ajudam a reduzir a sobrecarga

O relato de Rafa Kalimann sobre a solidão durante a gestação de Zuza repercutiu nas redes sociais e colocou em evidência a sensação de desamparo emocional vivida por muitas mulheres. Em seu documentário, a influenciadora contou que atravessou uma fase de medo, ansiedade e fragilidade, período em que disse precisar do apoio do companheiro, o cantor Nattan.

Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, a gravidez pode reunir sentimentos opostos ao mesmo tempo, mesmo quando a gestação foi desejada. Amor, medo, frustração, alegria e insegurança podem aparecer juntos, especialmente quando a mulher se sente pouco amparada.

“É muito normal sofrer altos e baixos durante a gestação. Ambivalência é amor e frustração, são dois sentimentos opostos existindo ao mesmo tempo na mesma pessoa. Por isso que fica nesses altos e baixos”, explica.

A especialista afirma que esse movimento emocional não significa falta de amor pelo bebê. Muitas vezes, segundo ela, a mulher desejava ser mãe, mas se vê diante de sintomas, incômodos, mudanças no corpo, medo do futuro e alterações na relação com o parceiro.

“Muitas vezes, a pessoa sonhava em ser mãe, desejava estar grávida, mas, por alguns motivos, aquela gestação não está tão legal quanto ela gostaria. Então, ela pode se sentir bem, mas também pode se sentir mal em relação à gestação”, diz.

Solidão não é só ausência física

No documentário, Rafa também falou sobre a sensação de não se sentir escolhida em um momento avançado da gravidez. Nattan, por sua vez, reconheceu que houve afastamento emocional entre os dois, mesmo quando estava fisicamente presente.

Para Rafaela Schiavo, a presença na gravidez não se resume a estar no mesmo ambiente. O apoio emocional passa por escuta, presença real, divisão de responsabilidades e disponibilidade para acolher a mulher em um período de mudanças intensas.

“Quando temos um pai visível, que participa, divide tarefas e está ali para dar banho, trocar, alimentar ou acolher um choro, isso é um fator de proteção para a saúde mental materna. Essa mulher sente que não está sobrecarregada, sente que está dividindo a tarefa de cuidar do filho com outra pessoa responsável tanto quanto ela”, analisa.

A psicóloga lembra que a chegada de um bebê costuma sobrecarregar o casal, mas a parceria muda a forma como essa sobrecarga é vivida.

“O casal já fica sobrecarregado quando tem um bebê pequeno em casa. Mas, quando existe divisão e parceria, isso ajuda muito na saúde mental dela, diminui a sobrecarga e facilita a construção da família”, avalia.

Saúde mental paterna também precisa entrar na conversa

Para Rafaela Schiavo, relatos como o de Rafa Kalimann também permitem ampliar a discussão sobre o sofrimento emocional dos homens no período perinatal. A psicóloga pondera que a ausência ou o afastamento de um pai não devem ser automaticamente interpretados como um único tipo de comportamento, sem que se observe o contexto.

Segundo ela, há casos em que o homem pode estar reproduzindo um padrão de irresponsabilidade afetiva, mas também há situações em que a fuga, a evitação ou a busca por distrações podem sinalizar dificuldade emocional diante da chegada de um filho.

“Quando olhamos para uma situação assim, também precisamos tentar entender o lado desse pai. Não para defender uma ausência, mas para não negligenciar que homens também podem apresentar sofrimento psíquico durante a gestação e o pós-parto”, afirma Rafaela.

A especialista explica que a gestação acontece no corpo da mulher, mas a transição para a parentalidade também impacta o homem. Por isso, antes de reduzir uma situação à ideia de descaso, é importante observar se aquele comportamento já existia antes, se houve mudança no padrão da relação e como o casal vinha lidando com a chegada do bebê.

“Às vezes, o homem está sendo apenas irresponsável. Mas, em outros casos, pode existir algum sofrimento emocional que aparece de forma diferente, como afastamento, fuga ou dificuldade de lidar com aquela nova realidade”, diz.

Esse olhar não diminui a dor da mulher, segundo Rafaela. Pelo contrário, ajuda a compreender a dinâmica familiar de forma mais completa e reforça que saúde mental materna e paterna não devem ser tratadas como temas concorrentes.

Os primeiros meses também podem confundir

Rafa Kalimann já havia falado publicamente sobre depressão, síndrome do pânico e busca por ajuda profissional durante a gestação. Para a psicóloga perinatal, os primeiros meses podem ser especialmente difíceis porque a mulher sabe que está grávida, mas ainda nem sempre sente a gravidez no corpo de forma concreta.

“Nos primeiros meses, a pessoa muitas vezes não sente que está grávida. Ela sabe conscientemente, porque fez um teste, mas ainda não tem barriga, não sente os movimentos fetais e, muitas vezes, não vivencia de fato a gestação”, explica.

Segundo Rafaela, o vínculo com o bebê costuma ser construído aos poucos, conforme a barriga aparece, os movimentos fetais começam e a gestação se torna mais palpável para a mulher e para a família.

Mudanças no corpo também pesam

Além da parte emocional, a gravidez provoca mudanças físicas que podem afetar a autoestima. Ganho de peso, crescimento da barriga, aumento dos seios, manchas e estrias fazem parte do processo, mas nem sempre são vividos com tranquilidade.

“Quando a mulher atribui muitos valores ao seu corpo, no sentido de precisar estar sempre magra, não poder ter barriga, não poder ganhar peso ou não poder ter manchas, e de repente passa a não apreciar o que vê no espelho, isso pode afetar a saúde emocional”, afirma a especialista.

A psicóloga reforça que reconhecer esse sofrimento não significa tratar a gravidez como algo negativo. O ponto é abandonar a ideia de que toda gestante precisa estar feliz o tempo inteiro.

Quando buscar ajuda

Oscilações emocionais podem fazer parte da gravidez, mas merecem atenção quando o sofrimento se torna intenso, frequente ou começa a afetar o sono, o apetite, a rotina, os vínculos ou a relação da mulher com a gestação.

Em casos de tristeza persistente, ansiedade intensa, crises de pânico ou sensação constante de desamparo, a orientação é buscar apoio profissional.

Para Rafaela, falar sobre saúde mental materna ajuda a reduzir a culpa de mulheres que não vivem a gravidez como um período idealizado.

“A pessoa pode se sentir bem, mas pode se sentir mal também em relação à gestação. Isso é muito comum na maioria dos casos. Enfrentar esses altos e baixos, amor e frustração por esse momento, é muito comum”, afirma.

Sobre Rafaela SchiavoProfª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, concluiu seu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou seu pós-doutorado na UNESP/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade. 

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